A Apple está sendo vítima do seu próprio sucesso

5 08 2008

Esta é uma expressão tipicamente francesa: “ser vítima do próprio sucesso”. O grande risco de toda empresa que cresce muito rápido é o de cair muito rápido, também. E para nós, macmaníacos de longos anos, pode significar o início do fim de uma era.

Revista Wired

O fato é que a Apple está crescendo numa velocidade assustadora. Basta lembrar que, há apenas dois anos, a marca dificilmente era citada em sites que não fossem especializados em Macintosh. Hoje, até minha tia do interior já sabe o que significa aquela maçãzinha mordida. E o preço das ações, então? Dias antes do anúncio do iPhone, a unidade valia US$85; um ano depois, quase tocava os US$200, ou seja, um crescimento de mais de 235% em apenas 12 meses!

Um crescimento tão rápido assim acontece sem conseqüências? É o que vamos analisar agora.

 

A Apple optou por difundir ao máximo sua marca. Seus produtos se popularizaram como nunca antes em sua história, com direito até à falsificação chinesa na 25 de Março (famosa região de comércios populares em São Paulo).

O problema quando temos muita demanda em tão pouco tempo é que qualidade inevitavelmente cai. Justamente o que sempre foi um ponto forte dos produtos da Apple, pode agora se transformar no seu calcanhar de Aquiles.

Os sintomas começaram a ser notados já no lançamento do Mac OS X Leopard. Previsto anteriormente para junho de 2007, o sistema só viu a luz do dia no final de outubro, por culpa do iPhone. Eu fui um dos que foi beneficiado pelo update gratuito do sistema — por ter comprado um iMac dias antes —, mas sofri muito com a sua instalação. Nada funcionava, aplicativos fechavam sem motivo aparente e me acostumei com, no mínimo, um kernel panic por dia; foi um verdadeiro inferno. Nunca tive um sistema tão instável nem nos tempos do saudoso System 7. E é horrível você ter acabado de comprar um computador topo-de-linha e vê-lo com tantos problemas assim. As coisas só começaram a voltar ao normal semanas depois, quando a Apple liberou uma atualização do firmware que reparava uma incompatibilidade do novo sistema com a placa gráfica do meu computador.

Aí eu me pergunto: o sistema operacional é incompatível com o computador da própria empresa? Como assim?

Na mesma época, convenci uma amiga a trocar seu notebook feio por um lindo MacBook. Dois meses depois, ela me liga, reclamando que um pedaço ao lado do teclado havia rachado. “O quê? Impossível! Isso é um produto Apple, você é que deve ter feito algo errado”, respondi. Infelizmente (ou felizmente, para ela) a assistência técnica oficial não concordou comigo: aceitou trocar todo o case sem cobrar um tostão, pois era um problema que vários MacBooks estavam apresentando.

E, de novo, me pergunto: Cases de computadores da Apple rachando após dois meses de uso? Como assim?

Veio o novo iPhone 3G e, com ele, o fiasco no dia do lançamento: os servidores caíram e deixaram fora do ar centenas de novos clientes que haviam acabado de comprar seu sonhado telefone. O grande problema foi que ela, nessa fase megalomaníaca pela qual passa, resolveu lançar quatro grandes produtos no mesmo dia: OS X iPhone 2.0, App Store, iPhone 3G e MobileMe. Óbvio que os servidores, por melhor que fossem, não conseguiriam agüentar. Por mais que o tio Jobs assuma que foi um erro, é tarde demais para lamentar, pois o estrago na imagem já foi feito.

Aliás, o MobileMe (sempre fui contra esse nome) veio substituir o .Mac, serviço que funcionou razoavelmente bem durante alguns anos. Ele tinha chegado a uma maturidade que o velho iTools (lembram dele?) sempre quis, mas nunca alcançou. Aí os fiéis clientes que por anos pagaram pelo serviço tiveram que ficar alguns dias sem poder acessar seus emails (muitos deles profissionais), justamente por causa do recém-nascido. Anos de confiança jogados no lixo, tem sentido isso? Por que não lançar um serviço paralelo e fazer a transição gradualmente? Não dá para entender.

E as rachaduras no novo iPhone branco em menos de um mês de uso? Como se explicam? Sou forçado a repetir: “Como assim?!”

Poderíamos ficar horas aqui enumerando os vários problemas da Apple de um ano para cá (e tenho certeza que vocês citarão muitos outros nos comentários). Mas o que temos que analisar é o perigo que a Apple está correndo se continuar com essa política de querer dominar o mundo antes que Jobs saia do comando. É isso mesmo: a impressão que dá é que a doença dele fez com que os acionistas quisessem acelerar todas as novidades possíveis enquanto ele ainda está na presidência.

Mas isso pode acabar muito mal. Muitos dos novos clientes que estão descobrindo a Apple só agora podem começar a considerá-la como sinônimo de mal serviço ou baixa qualidade, o que acaba com qualquer empresa. O risco é que o sonho que sempre tivemos (ver a Apple grande e popular) se transforme em nosso maior pesadelo.

Quantidade nunca pode prevalecer sobre a qualidade e parece que é isso que está acontecendo na Apple. Até quando isso durará?

O problema é que nos acostumamos muito mal. Por anos, tivemos produtos de ótimo nível pelos quais nunca nos importamos em pagar um pouco mais. Será que não podemos querer essa qualidade de volta? Ou seria o início do fim para a Apple?

O tempo dirá…

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